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Por uma linha telefônica

Deve-se ao italiano Camilleri a invenção de um tipo impagável: o comissário Montalbano, herói de policiais como O Cão de Terracota. Mas também vale a pena ler as obras do autor que não trazem esse personagem. É o caso de Por uma Linha Telefônica, uma sátira à burocracia. O livro é uma colagem de decretos, memorandos, bilhetes confidenciais e diálogos travados por autoridades, figurões e cidadãos fictícios da Sicília em fins do século XIX. A partir da carta em que um comerciante pede a instalação da linha telefônica do título, desenrolam-se as confusões mais rocambolescas, que envolvem até a Máfia. Trechos do livro: "Por que me trouxe aqui pra baixo, hein, senhor La Ferlita?" "Porque este é o arquivo velho da Prefeitura, aqui vivalma põe os pés. Não vão poder ver-nos. Eu não quero qualquer contato com o senhor. Será que meu irmão não lhe explicou isso bem claro, senhor Genuardi?" "Seu irmão foi muito claro. 'Talvez até demais." "E então por que o senhor vem me incomodar na Prefeitura? Eu tenho um nome respeitado, sabe?" "Mas posso saber que merda deu na cabeça de todos vocês da Prefeitura contra mim? Que foi que eu fiz, mijei fora do penico?" "É a mim que vem perguntar isso? O senhor sabe muito bem o que tem aprontado! E fique sabendo que eu não gosto de ouvir palavrões de baixo calão!" "O que eu aprontei?! Mas eu não aprontei nada! Escrevi três cartas ao Prefeito pedindo uma informação e ele é que interpretou mal." "Não creio que a coisa seja apenas esta. O Comendador Parrinello me pareceu seriamente preocupado." Pois que vão tomar no cu, ele e sua 'celência'! "Ouça, já lhe disse que os palavrões..." "Está bem, desculpe. Passemos ao motivo de minha visita. Eu não estou aqui por mim, senhor Giacomino. Vim cá por seu irmão, Sasà." "Não meta o Sasà nisso." "Não posso! Antes pudesse! Mas é um dever de amizade!" "Ouça... " "Não, agora chega, o senhor é que vai me ouvir. Eu tenho que avisar ao Sasà que alguém o está procurando para arrancar-lhe o couro." "E por quê?" 'Ah, agora quer se fazer de inocente? Então não sabe que seu irmão Sasà enrabou meio mundo? Não sabe que ele deve dinheiro à Sicília inteira?" "Isto eu já sei. Porém está pagando regularmente suas dívidas. Que tenham paciência e de uma hora para outra receberão de volta seu dinheiro." "Ora, não me faça rir que me faz mal ao fígado! Então o senhor não sabe que seu irmão Sasà, passando calote em todo o mundo, às cegas, em seja lá quem for, deixou de pagar duas mil liras a Nino Longhitano, irmão do Comendador Don Lolló?" "Cacete! Caralho!" "Qué isso, sujou a boca? Agora diz palavrões?". "Justo no irmão de Don Lollè Longhitano este desgraçado do Sasà tinha que dar um calote de duas mil liras? Eu fico me perguntando: meu bendito irmão, é exatamente onde tem fogo que você põe o pé?" "Que é que vamos fazer? Aconteceu. Agora, o senhor sabe muito bem que o Comendador Longhitano é pessoa com quem não se brinca, e quer que seu irmão Nino seja respeitado. Eu tenho o antigo endereço do Sasà em Palermo, o da Praça Dante, mas o novo ele ainda não teve tempo de me mandar. Se for esperar até que ele me escreva, talvez já seja demasiado tarde." "Virgem santa! Tarde demais pra quê?" "Exatamente para aquilo que está imaginando. O Comendador Longhitano não só mandará espancá-lo, como talvez o faça perder definitivamente seu vício! Depende do senhor, meu caro Don Giacomino La Ferlita, ter ou não na consciên- cia a vida de seu irmão." "Está bem, hoje mesmo eu escrevo para ele." "O que é que o senhor vai fazer?" "Escrever para ele." "Mas onde é que o senhor está com a cabeça? O senhor pega a caneta e escreve! Primeiro, não se sabe quando a carta vai chegar, certo? De Vigàta a Palermo provavelmente levará uma semana. E aí vai chegar tarde demais. Depois, quando o que for feito estiver feito e chegarem os carabineiros para a ocorrência, descobrem sua linda cartinha de advertência. A esta altura, o senhor pode dizer adeus a sua carreira na Prefeitura. Se, ao contrário, o senhor se decidir a me dar a porra do endereço de Sasà, eu pego o trem e vou ao encontro dele. Entendeu, senhor La Ferlita: eu estou pondo em risco minha existência para ajudar a Sasà. Convença-se disso." "Está bem. Meu irmão mora na Avenida TuIçory em Palermo mesmo. No número quinze, em casa da família Bordone." "Precisávamos perder tanto tempo? Por, onde, porra, se sai deste labirinto?"





Last modified Saturday, December, 10, 2016